domingo, 15 de setembro de 2013

RANCORES IDEOLÓGICOS: Reflexões sobre o movimento do “menos médico”

Quero mais médico pro povo brasileiro
E mais saúde pra quem não tem dinheiro
Pode ser daqui ou lá dou do estrangeiro
De Cuba, Espanha ou Portugal,
O que eu não quero é ficar passando mal

Muitas das manifestações das relações sociais se mostram para nós sem realmente permitir a exposição de sua essência pra os homens e as mulheres que a enxergam ou sentem por motivos diversos. Assim, muitas das relações sociais aparecem para os homens e mulheres de maneira invertida e escondem conscientemente e com uma intencionalidade clara as razões de sua existência suas origens. É comum que os próprios sujeitos dessas relações sociais, que acabam se posicionando em um polo passivo delas, não tenham ciência da origem daquela prática. Esses discursos que invertem a realidade e que se constituem por lacunas, espaços em branco, não são de forma alguma fruto de uma conspiração maligna dos sujeitos reacionários, mas surge da própria condição de classe daqueles que dominam, nasce da projeção ideal da realidade na mente desses sujeitos.
A campanha asquerosa encampada por setores dos médicos brasileiros contra o programa governamental “Mais médico” não se isola dessa lógica. As reivindicações da categoria médica mostra sua aparência como defensora de direitos de trabalhadores, como aglutinadoras das vontades da população brasileira, mas, antes de assimilarmos esse discurso, é preciso que identifiquemos bem os sujeitos que o emitem, e o que de fato ele quer dizer.
Alguns acontecimentos recentes nos ajudam para identificar bem o real caráter desse movimento de batas: um rancor classista e essencialmente ideológico. Nada é mais sintomático dessa raiva classista de uma elite que vê seus benefícios sendo reduzidos do que aquela imagem lamentável de um negro cubano, ao chegar ao aeroporto de Fortaleza, sendo recebido por um grupo de brancxs, bem arrumadxs, e que se imaginavam imunes graças às suas batas bem cuidadas, vomitando ódio junto aos seus gritos: “escravos”. Nada deixa mais claro o caráter classista e racista desse movimento do que a declaração “inocente” da jornalista potiguar de que os médicos cubanos que chegavam ao Brasil pareciam empregadas domésticas.
E toda a maquiagem cai por terra também quando xs senhorxs feudais dos bisturis levantam seus discursos raivosos unicamente a vinda de médicos cubanos. Ora, não é um programa governamental que vai levar médicos brasileiros, e de diversas outras nacionalidades, inclusive cubana, para as cidades em que faltam? Então como justifica esse ódio unicamente a vinda dos cubanos? Por que não dos portugueses? Dos espanhóis? Seriam sentimentos coloniais? Desinformação?
Está muito mais que claro que setores, entre eles esse movimento contra majoritário do menos médico, está revivendo lembranças da guerra fria, ressuscitando o medo vermelho a qualquer custo (o que sabemos bem que culminou no golpe de 64), e na essência desses discursos raivosos também se encontra uma tentativa de desmoralizar a revolução cubana e incitar na população brasileiro o medo “dos guerrilheiros de bisturi”, o receio em romper com um modelo de promoção da saúde baseada em lucro, em uso de medicamentos caríssimos, tendo como centro não o homem e a mulher doente necessitando do direito à saúde, mas a mercadoria saúde. Mas a aparência é outra.
A categoria médica, que fez uma opção de classe evidente levantando sua bandeira do menos médico, se mantém na trincheira oposta ao do povo brasileiro, emite uma reivindicação evidentemente anti-popular: menos médicos nas cidades do interior, mais espaço, mercado e privilégios aos senhorxs de branco. No entanto, seu discurso se transveste, chegando ao ponto do presidente do SINMED do Estado do RN se mostrar como paladino da saúde pública, defensor dxs trabalhadorxs, parecendo preocupado com as condições de trabalhos dxs médicxs cubanxs, querendo ele que nos esqueçamos de que no passado recente, ele esteve engrossando as fileiras dos apoiadores de uma candidata do DEM, aquela mesma que hoje ele faz oposição (real?), o partido herdeiro do autoritarismo de 64 e que historicamente se colocou em lado oposto ao dxs trabalhadorxs e que impede os avanços da luta pela erradicação do trabalho escravo no Brasil.
Que a universidade elitista, baseada na meritocracia tenha produzido médicos tão distantes do povo, isso não me surpreende. Mas como organizações de esquerda pode ousar também engrossar essa campanha odiosa? Como se colocar contra um programa que pode diminuir a morte do povo nas cidades mais longínquas? Como pode ser desmobilizador ter médicos para te atender? Só mesmo um grande distanciamento do povo e dos movimentos populares para justificar uma postura dessas, na melhor das hipóteses, ou uma indiscreta e vergonhosa postura de se colocar contra luta do povo.
Que esse programa não é a solução de todos os nossos problemas, isso é inegável, ainda temos muito no que avançar, ainda temos muitas opressões a combater, tanto no que se refere à concretização do Direito a saúde, como em um plano muito mais amplo. Por isso que o povo tem reivindicado o seu espaço nas ruas, não para desestabilizar, ainda, qualquer ordem, mas aprofundar as reformas que nos foi prometida em 2002, e para construir o poder popular.
                   (foto: Recepção aos médicos do programa "Mais Médicos". Natal,15 de setembro de 2013)